Ladainha_1


Ladainha

Há algo de podre neste reino.
Todos os dias, muitos morrem.
E a cidade fica mais vazia.
Todos os dias, muitos se corrompem.
E as pessoas ficam mais descrentes.
Todos os dias, muitos choram.
E impera o cheiro de mofo.
Todos os dias, muitos caem.
E o gesso se mistura ao cimento.
Todos os dias, muitos nascem.
E as perspectivas não melhoram.
Todos os dias, muito adoecem.
E a vida se parece com um grande hospital.
Todos os dias, muitos saram.
E prosseguem, com a saúde mutilada.
Todos os dias, muitos viajam.
E nem sempre conseguem retornar.
Há psicanalistas procurando os motivos do ódio.
Há assistentes sociais, procurando lenitivos da fome
Há professores, ensinando e desaprendendo.
Há alunos desaprendendo o aprender.
Há medos sem justificativas.
Há justificativas, sem razão.
Há razão sem argumentos.
Todos os dias muitos brigam.
E a violência fica mais forte.
Todos os dias, muitos lutam.
E as marcas sulcam a pele.
Todos os dias, muitos fogem.
Mas não de sua própria prisão.
Todos os dias, o ar poluido.
A água parecendo lama.
O barulho que ensurdece.
Todos os dias, imagens distorcidas.
No lugar do verde, o cinza.
No lugar do branco, o luto
No lugar do ouro, a ferrugem
No lugar do sonho, a realidade.
No lugar do sempre, o Adeus.

reginaLU

Enviado por reginaLU em 17/02/2007
Código do texto: T384614

 

 

 

SILÊNCIO

No silêncio na escuridão 

No escuro ouço um canto,
que desmonta a solidão.

Na solidão vejo luz,
desfazendo a escuridão.

De cansaço fecho os olhos,
em confortável repouso.

Esse canto é som amigo,
nem mais o escuro acontece...

Doce penumbra me abraça
relaxo, sonho e percebo,
que o canto da escuridão,
expulsou a solidão. 

Participação na Ciranda "No silêncio da escuridão"
publicada em 
http://www.cirandasdeletras.cantodapoesia.net/no_silencio_na_escuridao.htm

reginaLU

Enviado por reginaLU em 17/02/2007
Reeditado em 07/01/2008
Código do texto: T384603

 

 

Insônia
reginaLU

É noite avançada!
Todos dormem...
Há fantasmas em mim...
A vontade é de perambular pelas ruas, arrastando as correntes que me prendem à condição humana, na esperança de que algo aconteça, que as rompa para sempre.
Enfrentar as trevas do desconhecido, fechar os ouvidos às bocas que torturam, sem sons para confortar.
Repentinamente é possível perceber que essas vozes são minhas.
As noites insones têm sido amigas.
Quase todas, agitam-me o ser, como o fazem imensos vagalhões a fustigar a praia.
Judiam, causam espumas encardidas, sangramentos em antigas feridas.
Trazem à tona, tesouros e feras das profundezas dos céus e infernos interiores.
Mas é nisso tudo que reencontro a paz, que a agitação rouba da cidade grande.
Descanso nas madrugadas, o espírito, que no dia a dia, se envolve na correria de viver.
Brinco de Poliana, fingindo contente, em sonhos despertos.
Mergulho de vez no doce silêncio da noite. Espio pela janela, sem barulho, como que temendo despertar os que dormem.
De certa forma, sinto-me responsável por todos.
É como se, por dormirem, estivessem vulneráveis...
e eu pudesse, vigilante, proteger.... prevenir... zelar...
Suspendo a respiração... é bom sentir que há controle sobre ela.
Acima de tudo é bom sentir-se viva...
E os sonhos têm tudo a ver com isso.
Repouso em tudo que da esperança, sobrou em mim.
Num instante de incrível lucidez, sinto-me muito leve e capaz de penetrar as mentes.
Recordo sorrisos, releio os escritos, faço minhas as suas palavras, trago imagens, bocas, mãos, cheiros...
Calor no estômago!
Assopro folhas imaginárias que estão se desprendendo dos meus outonos...
E elas caem mansamente, apenas tocando o nariz que teima em penetrar mistérios que não são da minha conta...
Descubro razões para amar a vida e viver...

Enviado por reginaLU em 17/02/2007
Código do texto: T384573