MEU BARQUINHO

 

 Meu barquinho, para onde vais,

Que levas brancura nas velas,

Que colhes bonanças e vendavais,

E já não podes passar sem elas?

 

Meu barquinho, são os teus ais,

Quando dizes gostar mais delas,

Ondas que roçagam teus taipais,

Do que das lautas caravelas?

 

Meu barquinho, não é grande não,

Não tem ornamentos nem vigias,

E até a quilha é feita de papelão,

 

Mas quando vai no vento suão,

De velas dadas, sua condição,

Leva consigo todas as fantasias.

  

Jorge Humberto

(17/03/2003)

 

 

 

A CRIANÇA QUE HAVIA EM MIM…

 

 Olhei-me no espelho da água e não me reconheci,

Criança sem afecto que cresceu depressa de mais.

Soletrei meu nome na pedra que mui cedo entrevi,

Como não entendi também não percebi meus ais.

 

Que buscava eu não sei ainda, menino de seus pais;

Virou a água chuva e a chuva eterno e justo jardim.

Quando procurei bem junto dos novíssimos madrigais

Alguém que me dissesse, porque estaria eu então ali.

 

Quando, num parque ali perto, pude ver as crianças,

Sorrindo a tudo e a todos, como só elas sabem fazer.

E, com a força que restava em mim, fui das esperanças

 

Buscar o sorriso, que há tanto, de mim se escapulia.

Só então me apercebi, se alguma coisa aqui quero ser,

Tenho de perceber que essa coisa se chama alegria.

 

Jorge Humberto

12/10/07

 

 


A FLOR DA MANHÃ

 

 Cortaram pela haste a flor da manhã,

Secou o orvalho e o gosto a hortelã,

Que emanava da terra o seu fragor,

Ficando só o jardim em súbito torpor.

 

O sol desapareceu a meio à chuva

E as vinhas em ira não deram uva.

Pobre agricultor que fica sem pão,

Porque a horta já não cresce do chão.

 

Ante a afronta a natureza se rebelou,

Não mais os braços nem o nervo,

Da pobre gente que jazendo se calou.

 

Quem foi que aqui cometeu tal crime,

Da natureza o seu ilustre acervo,

Vem homem, quem foi, dime, dime?

 

Jorge Humberto

16/06/07