RESTOS DO NADA

João Coelho dos Santos


  
Sou vagabundo errante

  Que nunca encontrou um abrigo;

  Vivo na rua da vida,

  Na rua por onde sigo.

  

  Sou um jovem disfarçado.

  Um triste, que em vão chora

  A inconstância da sorte;

  Sou um velho derrotado

  Que jaz na fria laje

  E sente o sopro da morte.

  

  Sou clarão do relâmpago

  Que mal chega a iluminar;

  Sou cego que vive à procura

  De mão certa, que o ajude,

  As trevas a desvendar.

  

  Sou Amor que agora vive,

  Desilusão que logo virá;

  Sou hoje intrusa lembrança

  Que morrerá amanhã.

  

  Sou um simples devaneio

  E dele o rastro ficou.

  Serei um dia, mais tarde,

  Restos...do nada que passou.

  

  13.01.1959

 

NO ALÉM

João Coelho dos Santos

  

  Quando meu corpo estiver em cinzas,

  Minha alma tiver voado para o Além,

  Minha memória não for lembrada,

  Eu,

  Coberto pelo pó dos séculos,

  Amortalhado pelo tempo

  No seu contínuo vai-vem,

  Verei,

  Com a luz difusa dos olhos

  Que a Terra devorou,

  Uma milícia de anjos

  Fazer renascer os corpos,

  Livrar-me da minha cruz,

  Conduzir-me levemente

  Através do espaço

  Para a Terra da Verdade,

  Onde se iniciará a Eternidade

  No gozo ou dor contínua. 

                                                          

  Relembrarei, sem saudade,

  Os tempo na Terra passados,

  Esquecerei a idade

  Dos entes mais amados

  E verei minha alma, só e nua,

  Trilhar a medo caminho penoso,

  Calcetado de espinhos,

  Que a fará chorar, arrependida,

  Dos males praticados

  Durante toda a outra vida.

  

  

  

   CRIANÇA

João Coelho dos Santos
  

  

  Criança! A vida é tua.

  A Natureza ri-se contigo.

  Os bonecos choram quando choras.

  O céu é azul, de prata a Lua,

  O mundo não tem formas.

  O futuro? Esse não te preocupa.

  Somente o presente

  Que passa sem te lembrares

  Que jamais voltará.

  

  O teu comboiozinho transporta

  Nas suas carruagens

  A inocência, a candura, a pureza.

  Queres agarrá-lo com uma só mão

  Para sentires todo o teu poder.

  Logo tu, linda beleza,

  Saltas, corres, sorris,

  E a vida é bela, mesmo muito bela,

  Nas suas incógnitas sucessivas.

  O popó é popó, nada mais.

  Rola, gira, enfim, alegra-te,

  Pois só isso interessa

  No curto espaço de tempo

  Em que és pequenino.

  Ri, meu querubim, ri,

  Porque ainda és um menino.