ALGEMAS PARTIDAS

(excerto de um dueto a Teka Nascimento)

Humberto Rodrigues Neto

 

Despedaçar de vez as tuas amarras,

tanto melhor será quanto mais breve

seja a busca do sonho a que te agarras

pra que outro amor teu coração enleve.

 

Fins de romance... histórias mal escritas

em rabiscos de enredos desiguais,

que nunca chegam a ser bem descritas

nas cenas dos capítulos finais!

 

Livre, agora, de anseios indecisos,

puseste um basta em tão cruciais dilemas,

e alheia a mentirosos paraísos,

já voltas a sorrir nos teus poemas!

 

Inda hei de ver, se assim o permitires,

da lua e das estrelas os refolhos

faiscando em tuas retinas quando abrires

a cortina de cílios dos teus olhos!

 

 

AS NOVE MUSAS

Humberto Rodrigues Neto

 

Liberadas por Zeus lá no Parnaso,

as nove musas resolveram vir

ao nosso mundo, num adejo raso

para outras musas tentar descobrir.

 

Calíope empunha a prancha e o buril,

traz Clio de um pergaminho os simulacros;

Euterpe sopra a flauta pastoril,

entoa Polímnia suaves hinos sacros...

 

Dedilha Érato a melíflua lira

e poemas canta no rigor do metro;

ao compasso de Urânia o globo gira,

dança Terpsícore da lira ao plectro...

 

E se Tália à Comédia se cingia,

e de hera coroada gargalhava,

Melpômene, a Tragédia resumia,

na máscara da dor, grinalda e clava!

 

Finda a pesquisa, feita em muda enquete,

conclui o grupo o seu trabalho e estima

que há milhares de musas na Internet

tão boas quanto aquelas lá de cima!

 

 

 

BEIJA-ME ASSIM...

Humberto Rodrigues Neto

 

 

Não quero ter de ti beijos formais,

quero-os assim, febris e irracionais,

iguais aos teus, vorazes e abrasivos...

Desejo-os plenos de arrepios ardentes

ricos de tórridas paixões mordentes,

arrebatados... sensuais... lascivos!

 

Beija-me em ânsia, descaradamente,

pouco importa nos veja toda gente

num beijo de luxúria e de pecado!

Que esse teu beijo cale em mim tão fundo

que eu possa nele, as perdições do mundo,

sentir de um modo vil e depravado!

 

Beija-me louca e escandalosamente,

beija-me lúbrica e ousadamente,

num tom grosseiro, quase cafajeste!

Beija-me, pois, do modo mais relapso

e que  esse beijo seja o mais devasso

de quantos foram os que já me deste!