O poema é um cubo de granito,

Mal talhado, rugoso, devorante.

Roço com ele a pele e o negro da pupila,

E sei que por diante

Tenho um rasto de sangue à minha espera

No caminho dos cães

Em vez da primavera.

 

José Saramago

( In: "Provavelmente Alegria")

  

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O poema é um cubo de granito

 

( inspirado no poema de J. Saramago )

 

Eugénio de Sá

 

 

...E se em pedra talhamos o poema 

Com a alma sangrando, atormentada

É porque uma revolta aprisionada

Nos faz cerrar o punho em cada algema.

 

É caminho de cães que percorremos

Picadas, sem recurso a maciezas

E os tropeços nas mágoas, agudezas

Que sangram cada verso que escrevemos.

 

Ah Poeta inquieto, se soubesses

O que mais vão fazendo ao teu país,

Mais em ti se veria esse cariz

Que em pedra transformava o que escrevesses!

 

*****
 

Tímida confissão

Eugénio de Sá


Perdoa, pelas tantas palavras que não disse
Pela ternura que em mim sempre calei
Mas tive medo que em mim se repetisse;
A nímia mágoa que nunca te contei.

Perdoa, se me contive em verves evasivas
Quando trocámos raras confidências
Sempre hesitei em tornar mais precisas
Confissões feitas de austeras valências.

Pois cedo entendi que em nós renascia
O sonho adolescente, quiçá essa utopia
Que - deslumbrados - nos fez levitar...

E que ambos estremecemos, e calámos
Como que confundidos, porque amámos
As doces sensações de voltarmos a amar.

*****

Perverso fadário

Eugénio de Sá

Pudesse eu estar num alto patamar
Onde a angustia tentasse, sem servência
Assomar-se às alturas, e porfiar
Sem conseguir alçar-se à minha essência

Pudesse eu minorar por tal conforto
Os árduos excessos deste coração
Pois este é fardo que já mal suporto
Que me entorpece e priva da razão

Pudesse eu ver sumir-se nesse ensejo
Qual perverso fadário; esta abulia
E dela, enfim, me livrasse sem pejo

E então toda esta angustia se extinguia
E eu seria feliz quando crio e versejo
Ébrio de luz, ao sol de cada dia !
 

*****

Revelações de um poeta triste

Eugénio de Sá

Saberás tu dizer, leitor amigo
Como se pinta um quadro em inversão
Que jeito se terá de dar à mão
Pra traduzir na tela o pervertido?

É um sentir que é intraduzível
- Como me foi a mim ao conhecê-lo -
Pois não há nele como convertê-lo
Em nada que se mostre plausível.

Descrevamo-lo então em poesia
Já que nela sempre há uma maneira
De transformar em cousa mais ligeira
O que é tomado por causa doentia:

Um dia certa dama bela e querida
Tida por impoluta e acreditada
Decidiu dar-se a ver por bem casada
E logo deu um rumo à sua vida;

Fez-se amorosa de um autor incauto
Um poeta carente, franco, promissor
E logo lhe jurou ditoso e eterno amor
Deixando o pobre em alto sobressalto.

Um outro amor a tinha maltratado
Não resultara em nada o prometido
Porque aquele que ia ser o seu marido
Escolheu outro caminho pró seu fado.

Era uma dor que ainda em si gritava
Mas era de tal monta a sua decisão
Que nem pensou que assim arriscava
Poder matar de dor um outro coração.

E lá se uniu ao poeta, em casamento
Ele deixara pra traz gente chegada
Ela exultava co’ aquele encantamento
Provado pelo ser que tanto a amava.

Mas lesta foi a vida a desmentir
Quem teimou promover uma ilusão;
Ela soube que errou e escolheu agredir
Quem lhe entregara – honesto - o coração.

Assim morreu na praia toda a esperança
Do poeta triste que queria ser feliz
Cansou, quase morreu naquela andança
Foi um amor que o destino não quis.

Mesmo assim, entendeu levar a sua cruz
Que, com a dela, juntas carregou
Tal jurara a si mesmo, e chorou
O mau fadário que a tragédia induz.

Mas certo dia, voltavam para o lar
E então ouviu tão graves impropérios
Tão humilhantes, iníquos e sérios
Que resignou da vida e de lutar.

Quase a partir soube d’outra verdade
Algo impensável, e a revolta imensa
Lhe trouxe outra razão à claridade
E a sua mão escreveu, rápida e tensa

Palavras de repúdio por tanta falsidade
E da desdita, com as lágrimas saltando,
Brotaram versos co’ pranto deslizando
Daqueles olhos cegos pla saudade!

Enquanto tu fingias que te importavas,
eu me importava – e sofria - na realidade, por ti !


Sintra - Portugal - Janeiro 2014